Como usar o GPU-Z para saber se a placa de vídeo usada é original

Por Vinicius Hertz
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Ao abrir o programa, você cai na aba Graphics Card. É ali que acontece quase toda a verificação.

Você achou aquela placa de vídeo usada por um preço bom demais e bateu a dúvida: será que ela é o que o anúncio diz? A dúvida faz sentido. Existe um golpe antigo, que continua circulando, em que uma placa velha e fraca é “maquiada” para aparecer no Windows como um modelo mais novo e caro.

Não dá para descobrir isso pela foto do anúncio, nem pela caixa. A boa notícia é que um programa gratuito, o GPU-Z, mostra em poucos minutos o que a placa diz sobre si mesma. Ele também mostra onde essa história não fecha.

Neste guia você vai aprender a baixar o GPU-Z com segurança, ler os campos que importam, reconhecer os sinais de fraude e entender o que o programa não consegue provar. No fim tem um checklist para levar na hora da compra.

Por que placa de vídeo falsa ainda é um problema em 2026

Comprar placa de vídeo nova ficou mais caro. Segundo dados da BigGo Finance compilados pelo site Tech Insider, 2026 já teve três rodadas de aumento de preço de GPUs. A causa é a falta de chips de memória, como tudo mundo já sabe — disputados pelos data centers de IA.

Com a placa nova mais cara, muita gente migra para o mercado de usados: OLX, Mercado Livre, grupos de Facebook, marketplaces. É aí que o golpe da placa falsa encontra terreno.

Um exemplo: em uma reclamação no Reclame Aqui, um comprador conta que recebeu uma “GTX 1060 3GB” por um marketplace. Com ajuda de um técnico, ele descobriu que era um chip antigo numa carcaça nova, com a BIOS modificada. É o relato de um consumidor, não uma perícia, pode ser mentira? pode, mas histórias parecidas aparecem há anos em fóruns brasileiros como Adrenaline e Clube do Hardware.

O que é uma placa de vídeo “falsa”, afinal?

Toda placa de vídeo tem uma BIOS, um pequeno software gravado na própria placa. É ela que diz ao computador “eu sou a placa tal, com tanta memória”. Pense nela como o crachá da placa.

O golpe clássico funciona assim: o fraudador pega uma placa antiga e barata e troca o crachá. A placa passa a se apresentar como um modelo moderno, inclusive no Gerenciador de Dispositivos do Windows.

Um exemplo documentado pela TechPowerUp, a desenvolvedora do GPU-Z: uma suposta RTX 2060 que, na verdade, usava um chip GK106, da geração Kepler, com mais de uma década nas costas. Outro caso comum, citado pelo site gHacks, é o de placas GTS 450 vendidas como GTX 1060.

O resultado costuma ser travamentos, artefatos na tela e desempenho muito abaixo do prometido.

Antes de tudo: baixe o GPU-Z do lugar certo

O GPU-Z é gratuito e feito pela TechPowerUp. Baixe só pelo site oficial dela (techpowerup.com/gpuz) e nunca por um link mandado pelo vendedor, nem pelo CD que acompanha a placa.

No momento em que este texto foi escrito, a versão mais recente era a 2.71.0, publicada em 22 de setembro de 2026. Ela ganhou novas leituras de clock para placas NVIDIA e suporte a modelos como a RTX 5060 com chip GB205.

Confira o hash do arquivo (leva 30 segundos)

Na página de download, ao lado de cada arquivo, a TechPowerUp publica os códigos MD5, SHA-1 e SHA-256. Esse código, o hash, funciona como uma impressão digital: se um único byte do arquivo for alterado, ela muda completamente.

Para conferir no Windows:

  1. Abra a pasta onde o arquivo foi baixado.
  2. Clique com o botão direito em um espaço vazio e escolha Abrir no Terminal.
  3. Digite o comando abaixo, trocando o nome pelo do arquivo que você baixou:
Get-FileHash .\GPU-Z.2.71.0.exe -Algorithm SHA256
  1. Compare o resultado com o SHA-256 publicado ao lado daquela mesma versão na página oficial.

Se bater, o arquivo é exatamente o que a TechPowerUp publicou. Esse hábito vale para qualquer programa baixado da internet.

Dica: ao abrir, o GPU-Z pergunta se você quer instalar. Dá para rodar sem instalar, o que é ótimo para levar o programa num pendrive e testar a placa no PC do vendedor.

Como usar o GPU-Z para verificar a placa de vídeo, passo a passo

Ao abrir o programa, você cai na aba Graphics Card. Antes de qualquer coisa, tire um print dessa tela. Ele é seu registro do que a placa apresentou.

Uma regra de ouro para todos os passos: compare sempre com a ficha técnica do modelo e da variante exatos, no site da NVIDIA, da AMD ou da fabricante da placa. Placas com o mesmo nome comercial podem ter configurações diferentes. A RTX 3060, por exemplo, tem versão de 12 GB e versão de 8 GB, e a de 8 GB usa um barramento de memória menor. Uma diferença dessas não é fraude. Fraude é quando os dados não fecham com nenhuma versão oficial daquele modelo.

1. Olhe primeiro o campo Name

O campo Name mostra o nome do modelo. Desde a versão 2.12.0, o GPU-Z tenta identificar placas NVIDIA falsificadas sozinho. Quando a detecção dispara, o programa coloca “[FAKE]” na frente do nome e exibe um triângulo de alerta.

Se aparecer isso, o sinal é fortíssimo.

Mas atenção: a detecção foi criada para padrões de falsificação conhecidos. A lista inicial cobria chips NVIDIA antigos, como G84, G92, GF108, GF116 e GK106. A ausência do alerta significa “nenhuma falsificação conhecida foi detectada”, e não “placa autenticada”. Por isso, siga os próximos passos mesmo que o nome pareça normal.

2. Compare GPU, Technology e Release Date

Esses três campos costumam denunciar incoerências grosseiras:

  • GPU: o codinome do chip, como GA106 ou AD107.
  • Technology: o processo de fabricação associado ao chip, em nanômetros (nm). É uma informação que o programa associa ao chip identificado, não uma medição física feita na placa.
  • Release Date: a data de lançamento do modelo, não a data de fabricação da sua unidade. Uma RTX 3060 fabricada em 2023 continua mostrando uma data de 2021, e isso é normal.

O que interessa aqui é a coerência. Se o anúncio promete uma placa lançada nos últimos anos e o GPU-Z mostra um chip de mais de uma década, fabricado num processo muito mais antigo, algo não fecha.

Um detalhe honesto: esses campos não são imunes à manipulação. O GPU-Z também depende do que a placa informa. Por isso nenhum deles decide sozinho. O valor está em cruzar tudo.

3. Confira Device ID, Subvendor e BIOS

Três campos que muita gente ignora ajudam a achar inconsistências:

  • Device ID: um código que identifica o chip e a fabricante da GPU.
  • Subvendor: quem fabricou a placa (ASUS, MSI, Gigabyte, Palit…).
  • BIOS Version: a versão do firmware da placa.

Nenhum deles é prova absoluta, porque também podem ser alterados. Mas vale desconfiar quando a caixa diz ASUS e o Subvendor aponta outra empresa, ou quando a versão de BIOS não aparece em nenhuma referência daquele modelo.

4. Confira memória e unidades de processamento

Na parte de baixo da janela ficam os campos de memória:

  • Memory Type: GDDR5, GDDR6, GDDR6X, GDDR7…
  • Memory Size: a quantidade de memória de vídeo (VRAM).
  • Bus Width: a largura do barramento de memória, em bits.

Compare também o campo Shaders, que mostra quantas unidades de processamento a placa tem. Um exemplo de alerta: a ficha oficial da variante exige GDDR6 e o GPU-Z mostra GDDR5, ou o número de shaders fica muito abaixo do especificado.

5. Use o botão Lookup

Ao lado do campo Name tem um botão chamado Lookup. Ele abre a ficha do modelo detectado no banco de dados da TechPowerUp, com especificações e fotos da placa de referência.

É a forma mais rápida de comparar o que o programa leu com o que aquele modelo deveria ter. Só lembre que o Lookup facilita a comparação, mas não autentica nada. Ele não confirma se a placa física, os chips de memória e o cooler são originais.

6. Entenda o Bus Interface (e por que ele não prova fraude)

O campo Bus Interface mostra duas informações, por exemplo “PCIe x16 4.0 @ x16 3.0”:

  • À esquerda: a interface que a placa suporta.
  • À direita: a velocidade em que ela está operando agora.

A velocidade atual pode ser menor por vários motivos perfeitamente normais: a placa-mãe ou o processador só suportam uma versão mais antiga do PCI Express, a placa está num slot com outra capacidade, ou o link reduziu a velocidade para economizar energia. Clique no “?” ao lado do campo para rodar um teste rápido de renderização e ver a velocidade sob carga.

Então, PCIe mais lento sozinho não indica falsificação. O que merece atenção é o lado esquerdo não bater com o que a ficha oficial diz que o modelo suporta, especialmente se isso vier junto com outros indícios dos passos anteriores.

O que o GPU-Z não consegue provar

Aqui entra um raciocínio que uso muito na perícia digital: uma ferramenta mostra o que ela consegue ler, e uma mentira bem construída também pode ser lida. O GPU-Z é principalmente uma ferramenta de identificação e diagnóstico. Ele não é um certificado de autenticidade nem um laudo de saúde da placa.

Uma placa pode passar limpa por ele e ainda assim ter problemas:

  • BIOS modificada fora dos padrões que a detecção conhece.
  • Desgaste de uso intenso, como em placas que passaram anos minerando criptomoeda.
  • Memória com defeito, que só aparece quando a placa é exigida.
  • Ventoinhas, pasta térmica ou reguladores de energia no fim da vida.
  • Reparos mal feitos, como chips ressoldados ou memórias trocadas.

Também vale lembrar o que a TechPowerUp disse ao BleepingComputer quando lançou a detecção, em 2018: na época, ela não conhecia casos de placas AMD falsas. Isso descreve o escopo conhecido naquele momento. Não significa que placas AMD falsas nunca tenham existido ou não existam.

Ou seja: o GPU-Z ajuda a responder “essa placa é quem diz ser?”. Para responder “essa placa está boa?”, você precisa de teste prático.

Teste prático: driver oficial, carga real e inspeção

Se puder testar a placa antes de pagar, faça estas três coisas.

1. Instale o driver oficial, nunca o do CD. Baixe o driver direto do site da NVIDIA ou da AMD. Em relatos publicados no Reclame Aqui, compradores contam que o driver oficial não reconhecia a placa falsificada. Em um deles, o consumidor afirma que o driver do CD também era modificado.

Mas o driver é indício, não prova, nos dois sentidos. Algumas placas falsificadas instalam o driver oficial normalmente. E uma falha de instalação pode ter outras causas. Use esse resultado junto com os passos anteriores.

2. Coloque a placa para trabalhar. Rode um benchmark conhecido ou um jogo pesado e acompanhe a aba Sensors do GPU-Z. Ela mostra temperatura, uso da GPU, clocks, uso de memória e rotação das ventoinhas em tempo real. Fique de olho em:

  • Desempenho muito abaixo do esperado para o modelo, comparado com resultados publicados.
  • Artefatos na tela: quadradinhos, listras ou cores estranhas.
  • Travamentos ou o jogo fechando sozinho.
  • Temperatura disparando rapidamente.

Dez minutos pegam os problemas mais óbvios. Numa compra de valor alto, estenda para 30 minutos ou mais e rode também um teste específico de VRAM, como o do programa OCCT. Algumas falhas de memória só aparecem com a placa quente ou sob padrões de uso específicos.

Um jogo que não chega perto de usar toda a memória anunciada não é, sozinho, evidência de fraude: muitos jogos simplesmente não usam tudo. Um teste de VRAM é que tira a dúvida.

Cuidado também com o outro lado: não rode testes pesados num PC com fonte fraca ou gabinete mal ventilado. Senão o problema que aparecer pode ser do computador, não da placa.

3. Olhe a placa com calma. Fique atento a parafusos espanados ou marcados, etiquetas que não combinam com o modelo, sinais de solda refeita, cooler pequeno demais para o modelo anunciado e conectores de energia derretidos ou escurecidos.

Lembre também que artefatos e travamentos não significam necessariamente fraude. Podem vir de pasta térmica ressecada, driver, fonte insuficiente ou overclock. Por isso o teste sob carga complementa o GPU-Z, e não o substitui.

Checklist para levar na hora da compra

Salve esta lista no celular:

  • GPU-Z baixado do site oficial, com o SHA-256 conferido
  • Print da aba Graphics Card salvo
  • Campo Name sem “[FAKE]” e sem triângulo de alerta
  • GPU, Technology, Device ID e Subvendor coerentes com o modelo
  • Memória, Bus Width e Shaders batendo com a ficha da variante exata
  • Lookup conferido no banco de dados da TechPowerUp
  • Driver oficial instalado
  • Benchmark com desempenho compatível com o modelo, sem artefatos nem travamentos
  • Teste de VRAM, se a compra for de valor alto
  • Temperaturas razoáveis na aba Sensors
  • Inspeção física: parafusos, etiquetas, soldas, cooler e conectores
  • Prints de tudo salvos: anúncio, conversa e telas do GPU-Z

Se o vendedor não deixa testar de jeito nenhum, isso já é uma informação.

Comprei uma placa falsa: e agora?

Primeiro, documente tudo: prints do GPU-Z mostrando o alerta ou as divergências, fotos da placa e da caixa, resultados dos testes, o anúncio e a conversa com o vendedor. É a sua prova.

Depois, o caminho depende de quem vendeu:

  • Loja ou vendedor profissional, inclusive dentro de um marketplace: em geral é uma relação de consumo, protegida pelo Código de Defesa do Consumidor. O art. 49 garante o direito de desistir de compras feitas fora do estabelecimento, como as online, em até 7 dias. O prazo conta da contratação ou do recebimento do produto, conforme o caso. Abra a reclamação na plataforma e, se não resolver, procure o Procon ou o consumidor.gov.br.
  • Venda entre particulares (OLX, grupos, ou marketplace só intermediando duas pessoas físicas): normalmente não é relação de consumo, e o CDC não se aplica automaticamente. Ainda podem existir caminhos pelo Código Civil e pelas regras de proteção da própria plataforma. Guarde as provas e use a mediação disponível. Pagar pelo sistema da plataforma costuma oferecer mais proteção do que um Pix direto para o vendedor.

Cada caso depende dos fatos e das provas. Se o valor for alto, vale buscar orientação no Procon ou com um advogado.

E quanto antes você testar, melhor. Em um dos relatos do Reclame Aqui, o comprador só descobriu a fraude depois do prazo de devolução e teve o pedido negado.

Conclusão

Na compra de uma placa usada, o GPU-Z funciona como um teste de coerência. Ele compara o crachá que a placa apresenta com os dados do chip, da memória e das unidades de processamento. Quando algo não fecha, você descobre em poucos minutos.

O insight mais importante, porém, é outro: nenhum campo sozinho decide, e nenhuma ferramenta sozinha certifica. O alerta “[FAKE]” é um sinal forte, mas a ausência dele só quer dizer que nenhuma falsificação conhecida foi encontrada. A resposta confiável vem do conjunto: GPU-Z, ficha técnica da variante exata, driver oficial, teste sob carga, teste de VRAM e um olhar atento na placa física.

Já passou por uma placa suspeita ou tem dúvida sobre algum campo do GPU-Z? Deixa nos comentários que a gente ajuda a interpretar.

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